AS VIAGENS DE CARRO DE BOIS
As viagens de carro de bois para Josino de Brito, a estação da Estrada de Ferro da Rede Sul Mineira, que servia Campos Gerais e cuja distância era de 24 km, eram uma verdadeira delícia para os meninos da época.
O serviço de carregar os carros exigia uma prática e perícia enormes, porque se se descuidasse, não caberia nem a metade do volume previsto, por causa do formato do carro, que é o de uma garrafa deitada, achatada, isto é, largo na traseira, afunilando-se para a frente, onde era atrelada a primeira junta de bois, a do "coice". Esta, por sua vez, pela tiradeira, canzil e correias, unia-se a outra junta e, assim, até chegar à junta de guia.
Os carreiros eram homens treinados, fortes e grandes conhecedores do ofício, pois ser carreiro sempre foi uma verdadeira arte, apesar das aparências em contrário. É necessário um grande entendimento, uma amizade profunda entre o carreiro e o boi. Os verdadeiros, os melhores, os mais capazes, jamais agridem o boi com vara de ferrão, dispensando-a totalmente, só a levando como uma "presença" para o boi lembrar-se de que algum dia, para aprender, sofreu sua ferroada nas carnes.
As juntas da "guia" e do "coice" devem ser escolhidas com todo o carinho, pois delas depende toda a complexidade e o êxito de uma viagem. Toda boiada é previamente amansada, com desvelo e paciência. Os bois que serão da "guia" ou do "coice" parece que nascem para isso, não são feitos ou amoldados ou ensinados. Se não tiverem no sangue a inclinação, a "vocação", para estas posições, não serão nunca perfeitos nas suas atribuições. Por isso, o amansador tem que ter muita perspicácia, muita "psicologia" para reconhecer as reses que servirão. As demais juntas entre o "coice" e a "guia", podem ser "burras", são apenas para fazer força, orientadas pela "inteligência" de suas companheiras."